Flerte Cinematográfico

“Paris, Texas” e as cinzas da existência

Atenção: Este texto contém spoiler 

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Já se perguntava Jack Kerouac em seu livro “On The Road”: “Qual é a sua estrada, homem? – a estrada do místico, a estrada do louco, a estrada do arco-íris, a estrada dos peixes, qualquer estrada… Há sempre uma estrada em qualquer lugar, para qualquer pessoa, em qualquer circunstância. Como, onde, por quê?”.

Neste trecho depreendemos que há uma inquietação a respeito do nosso caminho existencial; é, metaforicamente, a busca por uma estrada que sacia nossa sede, conduzindo-nos pelos caminhos imprevisíveis da vida como uma impetuosa onda.  E é nesse pensar que Kerouac assemelha-se a Wim Wenders: ambos retratam a estrada como ninguém, a incessante procura da própria afirmação, que, às vezes, pela falta de um alimento sentimental, impulsiona-nos a percorrer, percorrer e percorrer.

Paris, Texas abrange o universo enigmática do existencialismo. Apresenta uma forte dialética que nos direciona aos questionamentos acerca da nossa natureza: o que constrói a nossa identidade? Qual é o nosso caminho? Com base nessas perguntas, Wenders (Der Himmel ünder Berlin, Buena Vista Social Club) lança ponderadas reflexões a ponto de nos levar para uma confusa “estrada da vida”; os caminhos são formados unicamente pelas nossas dúvidas e inseguranças, a desolação faz parte do processo de descobrimento, mudança, e a longa jornada a qual nos submetemos a percorrer revela segredos que estão prontos para impactar a nossa constante procura.

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O longa-metragem narra a história de Travis (Harry Dean Stanton), um homem sem rumo. Presumido morto por quatro anos reaparece vindo do deserto na fronteira mexicana, divagando e sem nenhum resquício de memória. Ele encontra o seu irmão Walt (Dean Stockwell), que é casado com Anne (Aurore Clément), e tem o seu filho, Hunter (Hunter Carson), de sete anos a seu cargo, que a sua ex-mulher Jane (Nastassja Kinski) o abandonou à porta de Walt vários anos atrás. Para dar fim ao clima apático, Hunter e Travis começam a lapidar uma amizade cativante e a conspirar para encontrar Jane e trazê-la de volta para completar o espaço que ambos têm a necessidade de preencher.

Travis não sabe, mas as cinzas de um outrora significativamente feliz – premissa que podemos perceber na cena em que o casal grava com entusiasmo um vídeo em super 8 na praia, enaltecendo uma tarde de alegria e contentamento – podem reascender pelo seu caminho imprevisível, que não cessa em mostrar seu destino através de uma pequena e atrativa porta. E aí já podemos identificar a objetiva e primorosa direção de Wim Wenders, que, aliada com uma fotografia memorável e singular – um dos pontos notórios, que oscila entre um céu lidamente azul, com maravilhosos planos que valorizam as composições desérticas e as cores levemente saturadas, dando total vivacidade à obra –, conjuga um dos filmes mais belos da carreira do diretor, ficando apenas atrás, na minha opinião, de “Asas do Desejo” (Der Himmel ünder Berlin).

Tudo funciona em Paris, Texas: dos diálogos à fotografia (já mencionada aqui), das metáforas à direção de arte, da trilha sonora ao roteiro. A tessitura torna-se uma poética reflexão sobre a reedificação existencial de Travis, de modo a levá-lo a um palco de transições e anseios sobre a sua identidade. Cenas como a de Trevis na boate onde sua ex-mulher trabalha, exibe neste um dos diálogos (ou a ausência dele) mais avassalador do longa, cuja memória emocional encontra-se em um desolador horizonte, composto por olhares e silêncios perdidos, deixando apenas a alma de uma saudade inexpressiva proferir. Não há nada mais desconfortante e que exprime tantos sentimentos do que o silêncio apresentado nesta cena. E isso o diretor explora brilhantemente, marcando seu estilo ímpar, deveras inesquecível.

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Eis que o tão almejado reencontro acontece, Hunter sente uma enorme necessidade em conhecer Jane e, quando a encontra, não pensa duas vezes, deixa que seu instinto o conduza para abraçá-la. E, para apresentar o epílogo, Wim Wenders mostra Travis em uma sequência curta com um olhar de satisfação, mas que não esconde o fim de sua jornada pela completude existencial.

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