Sétima arte

A Árvore da Vida

Do néctar da vida à brisa introspectiva, da semiótica da criação à árvore poética.

Poster-a-arvore-da-vida

Terrence Malick é um diretor, digamos, que não tem o merecido prestígio devido à infrequente criação cinematográfica no âmbito Hollywoodiano. Mas, pelas “poucas” obras que ele realizou, foi o suficiente para mantê-lo em consagrado topo da sétima arte. Isso tudo é resultado de um estudo prolongado que concentra em suas projeções, um profundo trabalho minimalista e notavelmente moldado, seja pelo já consagrado Badlands – seu primeiro trabalho que já evidencia o lugar de destaque que teria na posterioridade –, pelo Days of Heaven ou, agora, pelo tão comentado The Tree of Life. É inegável, no que diz respeito à estética e conjuntura técnica, a inovadora construção desse filme. Foi um divisor de águas entre a acomodada proposta comercial e a forte atribuição do caráter reflexivo e filosófico que uma concepção artística concede, abrindo espaço para uma ótica concernente a metamorfose intelectual. É atribuindo valores cinematográficos de mútua interação entre o ato (filme) e o ser pensante (espectador) que, pelo convite sensorial que o Terrence Malick declara, transforma o papel do espectador (mero receptor passivo) em testemunha ativa, direcionando-o a elaboração discursiva de conclusões em um campo pouquíssimo explorado nos circuitos comerciais, podendo mudar a conformidade lógica na qual está inserido. Logo, The Tree of Life,assim como a dialética conceitual do cineasta,requer um leitor fílmico crítico e participativo, desmembrado da alienação inerte da contemporaneidade.
Tree-of-Life47-650x333E é nesse fluxo pensativo embalado pelas perguntas do diretor que The Tree of Life é concretizado, apresentando a relação de um casal americano dos anos 50 e seus três filhos. O drama é focado no vinculo do pai opressor (Brad Pitt) com o filho mais velho Jack (Hunter McCracken), que mescla com o futuro mais distante do Jack adulto, incorporado pela figura consistente de Sean Penn. Onde carrega consigo o vazio de um sentido existencial e as lembranças da infância, que, originadas por uma hábil ação do seu subconsciente, contestam o ser que ele se tornou, confrontando, na mesma proporção, passado e presente. O colidente arco familiar ascende a partir da dor dos pais pela perda de um filho – e vale ressaltar a imagem difundida dos três filhos que os pais criam em concomitância com a ausência do filho morto, na busca de cicatrizar o sofrimento. E a árvore genealógica cria forma, corpo e alma.
A produção enternece pela abordagem eloquente de atos exercidos pela família que, aliados com a vivacidade das imagens em movimento – compostas no contexto criacionista, da teoria do Big Bang, da coexistência da natureza e a da idealização do paraíso –, perscrutam indagações existenciais, questionamentos a respeito da nossa origem e identidade.
Traçando um percurso significativo, transcendental e enriquecido de semióticas instigantes, Malick dialoga com signos apreendidos propositalmente pela narrativa, atingindo o ápice da representação simbólica, proveniente da qualidade de elementos naturais. Nesse processo dedutivo de símbolos adotados pela perspectiva cinematográfica, a água é a exposição incrivelmente dominante, convocada em muitos momentos do filme. Em um desses momentos, inclusive, é mostrado nos primeiros minutos da projeção, marcado pela captura de uma voraz cachoeira de um plano de cima para baixo, o que já podemos perceber a visão enérgica e fortificante do componente aos olhos do diretor. Além de produzir um efeito de transição acelerada da vida, a água é identificada como uma interface de repouso e introspecção (o que não deixa de ser inquietante), apresentada na primeira cena que Jack (Sean Penn) ao levantar da cama se dirige a suíte e, já com as mãos em movimento na sequência posterior, acaricia a água que sai da torneira, demonstrando um movimento voluntário de meditação e dúvidas por intermédio da mesma.
The Tree of LifeO líquido da vida também anuncia libertação, como mostrado na cena em que um garoto sai nadando de um quarto inundado (aparentemente localizado no fundo do oceano, fonte de energia e vida), quase em sequência exibe uma noiva também nadando para a superfície. E, para concluir esse conjunto de ações que participam da mesma acepção, é mostrado o parto da personagem de Jessica Chastain, construindo uma exímia simbiose da criação, uma poderosa declaração de vida – compondo uma das cenas mais belas do longa. Já nos últimos minutos do epílogo os personagens e outras pessoas (seres que vão e vêm,que fazem parte da nossa transição na terra) encontram-se em uma deleitável dança de colisão e sossego, inerente do espaço contemplado,o qual é regado com muita água que, ao transmitir a mesma concepção de pacificar, colabora para o rico cordão semiótico.
A fragmentação que, por vezes, é justaposta com explosões cósmicas, com imagens de um universo colossal que vive constantemente em agitação, ganha crédito e indica a pequenez vida na terra defronte do extraordinário aglomerado de estrelas e objetos astronômicos. Entretanto, reproduz o imenso espaço de interrogações e receios sobre até que ponto o desconhecido, o novo, pode exercer influência no nosso modo de vida. Atribuindo essa significação com a ideia de silêncio – momentos que os personagens estão em um estado de quietação, abraçando “o respirar”, que não é simplesmente o ato de inalar e exalar o ar, mas de uma ação espiritual, que acaba acentuando o poder ponderativo que a vida nos oferece.

Jessica-Chastain41Embora Malick a todo o momento se pergunte sobre a existência de um Deus, no filme fica desprendido o seu desejo de confiar em um ser divino que, durante as duas horas e doze minutos de duração, é simbolizado pelo céu, olhando-nos de cima. As nuvens e o azul do céu transformam, muitas vezes, a atmosfera sisuda, guiando-a para a serena representação dos olhos de Deus, que o diretor persiste em cogitar que, de alguma forma, esse ser celestial está nos observando. “É lá que Deus mora”, diz a Mrs. O’Brien (Jessica Chastain) para o seu filho, apontando o dedo para o céu. Nesse custoso desejo de crer que, talvez, pela ausência de uma genuína condução existencial, Malick extrai seu lado crédulo e clama por uma fé edificante.

Termina a projeção de The Tree of Life e, gradualmente, o discurso vai permanecendo no nosso subconsciente, permitindo, mediante totalidade complexa e abrangente, um consumo de difusões de ideias, vivências e expressões bem elaboradas, ampliando a primazia da obra. Acredito que uma das intencionalidades que Terrence Malick procurou atribuir ao filme, seja também o resultado posterior que o mesmo possa exerce sobre nosso comportamento. No sentido idealizador,mais do que objeto estético com especificações próprias,constitui uma linguagem integrada de plurissignificação, partindo do principio que é tão importante sua apreciação quanto sua leitura (deixo claro a valor subjetivo deste argumento). Para isso, requer um mínimo de informações acerca de aspectos variados sobre o seu ensaio e os meios utilizados para sua análise. E é nesse processo que Malick realiza a proeza cinematográfica, diferenciada pela reconstrução e reorganização da linguagem, dando-lhe significados, não somente possibilitando estabelecer relações entre conteúdos e conhecimentos particulares, mas também ampliando o conhecimento do cinema como uma linguagem de arte. Experiência estética única que vale a pena ser (re) vivida.

thetreeoflife_pic03

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s