Fotografia

A Mise-en-Scène Fotográfica de Gregory Colbert

Durante todo o meu percurso fotográfico – de aprendizagem e deleitamento – não tive a experiência mais enternecedora e instrutiva do que com o olhar cativante de Gregory Colbert. E o que me deixa mais honrado em desfrutar do seu talento é,além da forte inspiração para o meu olhar de andarilho, a oportunidade de reinvenção por intermédio da sua concepção e subjetividade visual. Há quem diga que seu olhar abraça o divino, o sentimentalismo fortificante da natureza, o fluxo integracionista do homem – como matéria e alma – com o reino animal.
Gregory defende, através da oitava arte, a fundamental procura da recíproca conexão dos animais – que são vistos como monumentos, notáveis de sensibilidade – com a natureza humana, buscando, na sua totalidade, poetizar olhares e sensações, aflorar o instinto animal que há quem cada um de nós. Além, é claro, de elevar a profundidade do contato com a virtuosa sinceridade dos animais, com a filosófica e expressiva dança dos elementos, extraindo, assim, o perfume inebriante do universo, o silêncio apaziguador da vida.
“Ao explorar a linguagem e a sensibilidade poética comum a todos os animais, meu trabalho tenta redescobrir um universo outrora compartilhado com harmonia pelos seres humanos e os animais”, diz o fotógrafo, sobre a principal intencionalidade de sua obra-mor: Ashes and Snow.

SUEÑOS DE ÁFRICA

Ashes and Snow (2005) é um projeto em andamento que engloba diversos trabalhos fotográficos, películas em formato 35 mm, filmagens, exercícios artísticos e um romance epistolar. Conduzido por um profundo sentimento aventureiro e uma inabalável ternura pelo comportamento apaixonante e lírico dos bichos, Colbert conseguiu a proeza de capturar instantes de extraordinária harmonia entre humanos e animais. Diante do mergulho em um vasto campo inabitável, o artista alcançou um estado de espírito contemplativo, cujo corpo dar lugar para o olhar, e a mente para o coração.
Seu bestiário do século XXI inclui espécies totêmicas de várias regiões do mundo. Desde que iniciou a composição dessa incomparável obra-prima,em 1992, Gregory Colbert realizou expedições para regiões como Índia, Egito, Burma, Tonga, Sri Lanka, Namíbia, Quênia, Antártica, Açores e Bornéu, coletando momentos que ele eternizou em fotografias e documentos. Na sua longa e gratificante jornada em busca de exteriorizar a relação do homem com a natureza, de estreitar as indiferenças, o grito existencial omitido pelos elefantes, falcões, guepardos, baleias, babuínos e caracais deve ser defendido, acolhido com respeito e consideração.
O título Ashes and Snow refere-se ao relato fictício de um homem que, ao longo de uma viagem de um ano, escreveu 365 cartas à esposa. As fotografias e o longa metragem de uma hora, realizados por Colbert, constituem a plurissignificação das confluências e vivências descritas pelo narrador em suas cartas. Uma rapsódia carregada de vivacidade, de uma energia pura e verdadeira.
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A bem-aventurada linguagem fotográfica aqui, além de técnicas e edições, transporta um romantismo estético, deixando a serviço da musicalidade onírica o repertório da vida. No plano harmônico de preenchimento do sépia, cada composição, cada ensaio, torna-se o sustentáculo de uma narrativa simplória e, ao mesmo tempo, intensa, representativa. A quantidade enriquecedora de fascínio que o retratista extrai dos olhares de quem experimenta a serenidade da mise-en-scène visual, transforma valores, apreensões, traz à introspecção e, em especial, um forte apego por tudo que está à sua volta.
Ostentando a sutileza eminente das ações, o documentário mais parece ventos que sopram liberdade, que desbravam um mundo respirável de amor e afeto, absorvendo a placidez da atmosfera em que tudo se encontra em pleno estado de poesia. Para mim, Ashes and Snow é mais que um excepcional documento visual, é um exercício diário de tornar-me mais humano, mais sensível e esperançoso em relação aos próximos dias. Sobretudo, deixar-me mais próximo de Deus.
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“Os animais nunca impuseram barreiras aos homens. Foram os humanos que inventaram essa distância; ela é artificial.”  Gregory Colbert
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